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Епизоде 21
Последња 11.09.2026

Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

Епизоде

  • Hope é o filme mais divertido que vimos este ano. Os monstros vieram da Coreia 11.09.2026 38мин
    Monstros (mas o que são os monstros, afinal?) e humanos numa pequena cidade perto da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. Homens com armas nas mãos, sem saber como travar uma orgia de destruição inexplicável, descrições escatológicas detalhadas, gente estranha, a comédia humana em versão filme catástrofe, em versão filme de extraterrestres, em versão western. Seres que podem ter saído da saga Alien ou de Avatar. Hope, do coreano Na Hong-jin, é um alucinante divertimento, com uma primeira hora de uma perseguição que não vamos esquecer tão cedo. Em que momento os coreanos transformaram a influência norte-americana em algo muito próprio, com um humor que mistura crítica social e violência de desenhos animados? O que é certo é que o Governo coreano percebeu a força do <em>soft power</em> e a cultura está no centro da sua estratégia. Mas se a estreia de Hope nas salas portuguesas marca a rentrée, no Festival de Veneza, Vasco Câmara também se entusiasmou com um filme vindo da Coreia do Sul: Possible Love, de Lee Chang-dong, mais uma vez um olhar sobre a comédia humana, mas este mais melancólico. É a história de dois casais e de uma “​possibilidade” acontecer entre eles. "Não há uma moral da história, nem crime e castigo, nem espectáculo de '​filme de género' com os ricos e os pobres, aquilo que se generalizou cinematograficamente a partir do sucesso de Parasitas, de Bong Joon-ho (2019). Este é um filme, explicou o realizador, nascido do confronto de um tímido com as imparáveis mudanças nas sociedades", escreveu Vasco, a partir de Veneza. E também em Veneza foi mostrado aquele que prometia ser um dos filmes mais importantes do festival: NAZA, feito por uma dupla israelita, Yuval Abraham e Rachel Szor, parte de uma investigação de 2023 que pôs a falar ex-funcionários israelitas do sistema de morte em Gaza. É uma fria máquina de guerra, distante das suas vítimas e indiferente ao mal que causa que se revela neste filme impressionante. É da Coreia e dos seus monstros fictícios e de Gaza e do seu terror real que falamos neste episódio do No Escuro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Afinal, isto (também) é o Bangladesh 04.09.2026 29мин
    Rubaiyat Hossain é do Bangladesh e esteve em Portugal para a pós-produção do seu mais recente filme, A Noiva Difícil, que tem fotografia da portuguesa Leonor Teles, e que será apresentado no Festival de Veneza, que acaba de começar. Nessa passagem por Lisboa, encontrou uma comunidade triste e "de cabeça baixa" quando passeou pela Rua do Benformoso e percebeu que é com desconfiança que se olha para quem chega do Bangladesh - a indignação do Chega e de André Ventura, proclamando que "Isto Não É o Bangladesh" terá tido o seu efeito. Mas em Rubaiyat, cujo cinema denuncia desequilíbrios sociais, de género e de classe (veja-se Made In Bangladesh sobre um grupo de operárias de uma fábrica de roupa que querem fazer um sindicato), a campanha do Chega teve um efeito certamente contrário ao pretendido: a realizadora decidiu fazer um filme passado em Portugal. Quer mostrar como a história dos dois países se cruza desde há muito e, para isso, criou a personagem de uma empregada de limpeza de um museu de Lisboa que se confronta com esse passado comum. O Vasco Câmara já está em Veneza e vai ver como A Noiva Difícil será recebido, mas, para já, a notícia que deixou o festival em alvoroço foi dada à última hora (e não terá sido por acaso): Veneza vai mostrar NAZA, o novo filme de Yuval Abraham e Rachel Szor, a metade israelita do quarteto israelo-palestiniano (com Basel Adra e Hamdan Ballal) que realizou No Other Land, o documentário que venceu um Óscar no ano passado. NAZA é um acrónimo usado pelos serviços secretos israelitas que se refere aos civis mortos em operações militares - baixas que são assumidas como parte da estratégia adoptada contra a população palestiniana na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023. É o Festival de Veneza a tomar uma clara posição política, mostrando que há vida mesmo quando os mais mediáticos filmes americanos não comparecem - primam pela ausência Digger, de Alejandro González Iñarritu ou The Adventures of Cliff Booth, de David Fincher, e os respectivos actores, Tom Cruise e Brad Pitt. Neste episódio vamos falar disto - e do Bangladesh em Portugal. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • A doçura da Reboleira de Basil da Cunha — nem o jacaré mete medo 28.08.2026 35мин
    Isto não é um spoiler (e um dia destes temos de falar sobre spoilers): o jacaré é mesmo um jacaré, não é a alcunha de alguém. Falamos de O Jacaré, filme de Basil da Cunha, ainda (mas não sempre, porque ele diz que será o último nestes moldes) na Reboleira, o bairro onde escolheu viver com a comunidade que se tornou parte integrante da sua obra cinematográfica até hoje. Para quem viu os filmes anteriores deste cineasta luso-suíço — falamos de Até Ver a Luz (2013), O Fim do Mundo (2019), Manga d'Terra (2023) — é o regresso a rostos conhecidos, numa mistura entre identidades reais e personagens. São, na verdade, grandes actores, nesta mistura de vida e cinema. É a periferia, sim, mas Basil da Cunha não é o Pedro Costa de No Quarto da Vanda, nem o Pedro Cabeleira de Entroncamento, é outra coisa, um olhar sobre a Reboleira que parte de dentro e que, mesmo atravessado pela dureza das vidas, nunca vai pela escuridão, mas sim pela música, pela festa, pelo inusitado que pode ser — e, neste caso, é — um jacaré numa piscina. Há gangsters, gangues rivais, o dinheiro de um roubo que desaparece e que todos querem encontrar, há mulheres que não se deixam ficar, discussões, ciúmes, traições. Há ecos da Nova Iorque de Martin Scorsese, do Bronx, da Brooklyn de Spike Lee em Não Dês Bronca. E há um bairro, a Reboleira, que foi desaparecendo à medida que Basil o ia filmando — muitos dos lugares dos seus filmes já não existem e com eles desaparecem também ligações, histórias, cumplicidades, solidariedades. Os filmes têm ido ao Festival de Locarno, mas os prémios ainda não chegaram — sinal de que há ainda ideias demasiado rígidas sobre o que deve ser o cinema português? É uma pergunta que fazemos neste episódio do No Escuro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Que belos desastres, os de Hitchcock, Kubrick, Spielberg, Coppola ou Cimino 21.08.2026 50мин
    Que lindos que são, estes desastres, que objectos fascinantes. E tão magoados! Para o espectador, é como o fenómeno do acidente na auto-estrada: é despertado o voyeurismo de quem passa e também o desejo salvífico, de socorrer o ferido. Hoje, curioso o destino do flop comercial — é disso que tratamos neste episódio de No Escuro —, aquele filme que destruiu ou mudou carreiras, que levou companhias à falência, tornou-se um objecto de culto, amado e preservado com carinho. Desprezados na altura, são hoje tratados com desvelo. Filmes de culto, é como lhes chamam. Revisitamos as suas histórias neste episódio de No Escuro, começando pelo emblemático As Portas do Céu, de Michael Cimino, que não só fez do realizador praticamente um pária como pôs fim ao mais autoral período da indústria norte-americana. Ou, numa perspectiva da indústria, que em consequência disso se fechou, que se tornou mais conservadora: acabou com a arrogância dos realizadores! São estes "falhanços" que contamos, do insucesso de bilheteira ao verdadeiro desastre. É mais do que um vol d'oiseau, portanto, tendo em estúdio os sons e as histórias de Vertigo e de Do Céu Caiu uma Estrela, hoje objectos canónicos, mas na sua época ignorados pelos espectadores; de um clássico, A Noite do Caçador, que hoje vemos prostrados de admiração, mas que na sua época tornou Charles Laughton realizador de um só filme; de 1941-Ano Louco em Hollywood, que primeiro pôs à prova a fama de Spielberg como o realizador que transformava tudo em ouro; das derrocadas que varreram do centro da indústria Cimino, Bogdanovich ou o hoje esquecido John Byrum, que nos anos 80 chegou a ser um boy wonder; do primeiro fracasso que humilhou o até então sempre vencedor Schwarzenegger...; do odiado casal, porque visto como arrogante, Cybill Shepherd/Peter Bogdanovich. Por ordem de antiguidade, não pela ordem em que são referidos no podcast, eis os feridos: Queen Kelly (1928/29) Erich von Stroheim Do Céu Caiu uma Estrela (1946) Frank Capra A Noite do Caçador (1955) Charles Laughton Vertigo (1958) Alfred Hitchcock 2001 Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick Daisy Miller (1974) Peter Bogdanovich Barry Lyndon (1975) Stanley Kubrick New York, New York (1977) Martin Scorsese 1941 Ano Louco em Hollywood (1979) Steven Spielberg As Portas do Céu (1980) Michael Cimino The Shining (1980) Stanley Kubrick Do Fundo do Coração (1981) Francis Ford Coppola Blade Runner (1982) Ridley Scott O Fio da Navalha (1984) John Byrum Ishtar (1987) Elaine May O Último Grande Herói (1993) John McTiernan No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). A sonoplastia é do Tiago Orato. #levantemoraboevaoaocinemaSee omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Há 100 novos títulos na Filmin. Excepção! Sem levantar o rabo, grande cinema 14.08.2026 39мин
    Há plataformas de streaming e plataformas de streaming. Algumas transformaram-nos em consumidores (sabem de quem se fala). Outras permitem que sejamos espectadores mesmo, curadores da nossa aventura. Vamos directos ao assunto. A Filmin renovou no início de Julho o seu catálogo com mais de 100 filmes. Estão lá títulos aclamados como Amadeus e Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Miloš Forman, cineasta que vai ser objecto de uma retrospectiva no Batalha Centro de Cinema, no Porto, A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, A Costa do Mosquito, de Peter Weir, Ran, de Akira Kurosawa, O Último Ano em Marienbad, de Alain Resnais, Ser ou Não Ser, de Lubitsch, Cais das Brumas, de Marcel Carné ("t'as d'beaux yeux, tu sais"), O Relojoeiro de Saint-Paul, de Bertrand Tavernier, um dos seus mais belos mas razoavelmente desconhecido, ou Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch. Mas também os chamados "clássicos modernos", como Ghost Dog: O Método do Samurai, de Jarmusch, Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, Um Coração no Inverno, de Claude Sautet, autor de uma "música" delicada que em surdina influenciou o cinema francês, Abril e Quarto do Filho de Nanni Moretti, o David Lynch de Mulholland Drive, O Homem Elefante e Uma História Simples, o Godard de O Acossado, Pedro, o Louco, Alphaville e O Desprezo, o John Carpenter de Eles Vivem, O Nevoeiro e O Príncipe das Trevas.​ Começamos, No Escuro, por aqui: por um cineasta que pode ser simultaneamente glacial e comovente, Jean-Pierre Melville (O Círculo Vermelho, O Exército das Sombras, Bob, o Jogador e Cai a Noite Sobre a Cidade); pelo sortilégio do cinema de Luis Buñuel, realizador que, como quem não quer a coisa, derruba as resistências e descrenças do espectador, algo que se aproxima do verdadeiro hipnotismo (A Bela de Dia, O Charme Discreto da Burguesia e Este Obscuro Objecto do Desejo); por todo o Tati, o eterno e eternamente lúcido Sr. Hulot; pela passagem de Francis Ford Coppola para o "outro lado", One From The Heart e Apocalypse Now (e Os Marginais em versão integral); por Alain Delon, o actor com as mais belas mortes no cinema, e Patrick Dewaere, que talvez tenha morrido por causa do cinema. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). #levantemoraboevaoaocinema Siga o podcast podcast No Escuro e receba cada episódio semanalmente, às sextas-feiras, no Spotify, na Apple Podcasts ou novas aplicações para podcasts.See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Carlos Paião voltou! Trouxe os nossos fantasmas 07.08.2026 40мин
    Seguimos neste episódio o rasto de um cometa: Carlos Paião. Figuras da política ou do espectáculo como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Snu Abecassis e Sá Carneiro, Doce e António Variações tiveram o seu biopic ou foram objecto de interesse de realizadores portugueses. Mas os anos 80 do século XX português nunca foram mostrados assim, como em Playback, de Sérgio Graciano. Tão tristes e melancólicos que nós (ainda) éramos. Comovente, isto: não é um filme sobre Carlos Paião (1957-1988); é um filme com Carlos Paião. Como uma presença que nunca desapareceu, que existe muito no fundo de nós, mas que talvez não soubéssemos que ainda vivia. Ou a nossa memória fez das suas, exerceu o seu capricho e imprimiu, antes, a "modernidade", a noite, a "movida", Portugal longe do Estado Novo e despedindo-se também da época revolucionária. A Lisboa de António Variações, por exemplo. Assim, existiu um de um lado e outro no extremo oposto. Mas só os dois formam o retrato completo. Porque é que uma figura tão provocadora, tão extravagante como Variações (1944-1984) foi entronizada depois da sua morte e Paião — que escreveu para Herman José e passou 12 canções a Amália (que só gravou O senhor extraterrestre), que venceu o Festival da Canção, que teve até aos seus 30 anos 300 canções na cabeça — permanece subterrâneo? Ou terá finalmente chegado a sua hora? Legendary Tigerman/Paulo Furtado acompanha-nos nestes pensamentos. Foi ele que trabalhou a banda sonora do filme — de que consta um inédito, Lisboa, Lisboa — e formou uma banda que tem como vocalista Rafael Ferreira, o intérprete de Paião no filme, que se apresentará em concertos no final do ano. Tão melancólicos, até sombrios, tão trapalhões e tímidos e tão desconfortáveis na nossa pele que nós éramos. Os nossos fantasmas: vemo-los em Playback. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Eis em Portugal o filme que deixou Coppola e Scorsese boquiabertos: Soy Cuba 31.07.2026 39мин
    Estava a preparar Casino (1995), Martin Scorsese, quando descobriu a primeira co-produção entre a URSS de Nikita Khrushchev e a Cuba de Fidel Castro. Virtuoso obsessivo, ficou a matutar nos impossíveis movimentos de câmara que o georgiano Mikhail Kalatozov (1903-1973) concretizara em Havana em 1964. Onde desembarcara, vindo do frio da URSS, para fazer um filme que cantasse a revolução tropical, caribenha, que descera da serra Maestra e derrubara o regime de Fulgencio Batista, e para dessa forma a acrescentar à internacional comunista. E assim prolongar, cinematograficamente, as suas invenções formais que tinham estado ao serviço da propaganda soviética nos anos 30. Ficaram, Scorsese e Coppola, embasbacados com Soy Cuba (1964). Scorsese ficou a cismar naquela câmara que sobe ao terraço de um edifício, onde as potências internacionais se divertem, fazendo do regime do Presidente Fulgencio Batista (1901-1973) o seu parque de diversões e espoliações, e depois desce do outro lado e mergulha numa piscina de hotel. Ou aquele, ainda mais "impossível": o plano começa na rua, a câmara sobe a um edifício, passa para outro, onde está instalado um atelier de charutos, percorre-o, sai pela janela e voa sobre uma rua onde decorre o funeral de um estudante morto durante uma manifestação contra Batista. Por isso decidiram juntar-se, Coppola e Scorsese, e distribuir Soy Cuba comercialmente nos Estados Unidos. Foi então que o filme que os soviéticos e os cubanos tinham esquecido mal tinha sido acabado — sobre essa incompreensão mútua conversamos neste episódio do podcast — pôde recomeçar a viver e ser redescoberto, três décadas depois. Com um aval de tipo absolutista de Scorsese: se tivesse sido difundido e conhecido em 1964, dizia o realizador em 2003 numa entrevista ao crítico de cinema e escritor Richard Schickel, "o cinema teria mudado", "o cinema teria sido diferente mais cedo". É este filme que vamos descobrir no dia 13 de Agosto. Um Verão quente (cinéfilo) confirma-se: A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg (dia 6), Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov (dia 13), A Piscina, de Jacques Deray (dia 20) integram um programa de clássicos que descem às salas. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinemaSee omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Tom Cruise vai salvar o mundo (de novo). Seth Rogen não sabe se se salva a si mesmo — e isso tem graça 24.07.2026 36мин
    Rei morto, rei posto: ainda Ulisses não chegou a casa (mas a Odisseia de Christopher Nolan, como se previa, bateu recordes de bilheteira logo nos primeiros dias) e já as redes sociais se agitam com imagens do próximo blockbuster. Para vermos o filme completo, temos de esperar por Outubro, mas o trailer já está aí. Falamos de Digger de Alejandro Iñarritu, mas falamos sobretudo da sua estrela, um quase irreconhecível Tom Cruise, envelhecido e mais gordo através de próteses, no papel de um bilionário excêntrico. O discurso motivador do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de Futebol, no estádio MetLife, em Nova Jersey (há quem diga que ficou desiludido porque esperava um impacto maior) começou logo a ajudar como promoção do filme. E fez lembrar o seu voo sobre outro estádio, noutra cidade, noutro país: Paris, Stade de France, final das Olimpíadas de 2024. Diferente cenário, mas a mesma vontade de tornar o mundo (a América, ele próprio) grande outra vez. Será impressão nossa ou a cadência da voz de Trump pareceu ecoar no discurso de Cruise? Actor corajoso e talentoso —​ não esquecemos De Olhos Bem Fechados, um salto de fé com Kubrick — é o tipo de estrela que parece engolir tudo à sua volta. Nós pusemo-nos a olhar para esse hype. O que nos levou a outro actor. Que em alguns casos é também realizador e produtor: Seth Rogen. Junta-se a Oliva Wilde, realizadora e actriz de O Convite, e a Penélope Cruz e Edward Norton, numa comédia dramática sobre a vida de casal. É um inesperado sucesso neste Verão. E é o pretexto para falarmos sobre intérpretes — por exemplo: haverá demasiada auto-irrisão em Rogen, o eterno anti-galã desajeitado que, apesar disso, muitas vezes fica com a miúda?—, os registos televisivo e cinematográfico, a influência do humor de canadianos e judeus em Hollywood, e até o que faz o sotaque de Penélope Cruz à sua carreira. E porque nem só de blockbusters ou de sucessos inesperados se faz o cinema, não esquecemos uma pequena pérola indiana que está nas salas, O Canto das Árvores Esquecidas, de Anuparna Roy — a Índia das castas, as pressões sociais, os homens que usam as mulheres, as mulheres que usam os homens mas que criam laços únicos entre elas. Um filme muito pessoal, profundamente corajoso, feito com poucos recursos — nos antípodas de Digger. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinemaSee omnystudio.com/listener for privacy information.
  • O tradutor de Homero não quer ver "A Odisseia". Porquê, Frederico Lourenço? 17.07.2026 37мин
    A Frederico Lourenço devemos-lhe estes épicos trabalhos: em 2003 traduziu em verso, do grego, a Odisseia de Homero (pela qual recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e o Grande Prémio de Tradução APT/Pen Clube), e, dois anos depois, a Ilíada; em 2016, passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, e isso foi o pretexto mais próximo para a atribuição do Prémio Pessoa. É também ficcionista, ensaísta e poeta. E professor universitário. Concentrado nos estudos e na tradução do grego e do latim, não deixou no entanto de ser o cinéfilo que sempre foi. Trabalhou inclusivamente como crítico deste jornal. E foi por isso também que tivemos o prazer de fazer este herói regressar a casa. Por um episódio do podcast No Escuro. Para nos explicar as suas razões: é que decidiu não ir ver A Odisseia, de Christopher Nolan. Têm de ouvir a conversa para saber porquê. Resumido seria assim: desde os oito anos, quando leu pela primeira vez uma versão juvenil de Odisseia, que o futuro helenista tem todo esse filme na cabeça; por isso, tudo o que alguém queira acrescentar com actores e efeitos especiais, não menosprezando a capacidade de uma grande produção em levar mais leitores aos clássicos, parece-lhe redundante. Mas nós vimos o filme. E como o resto do mundo, estamos divididos. Entre a crença na proposta de aventura e, do outro lado, a confirmação de que Christopher Nolan pensa e opina como um cineasta do século XX — a importância das salas e o sortilégio da película, o braço de força com as plataformas de streaming — mas faz filmes do século XXI: uma sopa triturada, sem dar a provar a distinção, a nobreza, dos ingredientes que utiliza. Em suma, também se pode perguntar: é redundante ou é útil esta entrega de Ulisses a quem nunca pensaria em ler a Odisseia e pode, afinal, aventurar-se por ela? No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinemaSee omnystudio.com/listener for privacy information.
  • No cinema americano quanto mais quente melhor 10.07.2026 39мин
    Quais são os filmes mais quentes do cinema norte-americano? Há ondas de calor na tela pelo menos desde os anos 50 do século passado. Mas se nesse tempo de alguma inocência, elas libertam — as pernas de Marilyn quando o seu vestido branco é levantado pelo ar do respiradouro do metro em O Pecado Mora ao Lado —, em tempos de maior tensão, elas oprimem: veja-se, já nos anos 90, a fúria de um homem vulgar numa cidade que lhe é hostil, o Michael Douglas de Um Dia de Raiva. Há calor que traz os segredos para onde podem ser vistos por todos, como em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, e calor que faz os ódios acumulados explodirem nas ruas, como o de Não Dês Bronca, de Spike Lee ou o de Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, com Al Pacino num falhado assalto a um banco num dia de calor excepcional. Nos filmes adaptados de peças de Tennessee Williams, é o calor sufocante do Sul dos Estados Unidos que molda os conflitos. O corpo suado de Marlon Brando em Um Eléctrico Chamado Desejo é a imposição de um lado selvagem contra o frágil verniz social da cunhada, a Blanche Dubois de Vivien Leigh. Em Gata em Telhado de Zinco Quente, os conflitos familiares explodem mas o cinema, esse meio de massas, não pode ir tão longe quanto a escrita de Tennessee Williams e, por isso, a homossexualidade de Brick, a personagem de Paul Newman, é apenas sugerida — tal como a possibilidade de infidelidade de Richard Sherman (Tom Ewell) de O Pecado Mora ao Lado não passará de uma fantasia nunca concretizada. O calor opressivo — de diversas formas — do Sul é diferente das temperaturas escaldantes de cidades como Los Angeles ou Nova Iorque. Mas ambos marcam no nosso imaginário essa América criada pelo cinema. Neste episódio do No Escuro, a partir de um Portugal que enfrenta uma onda de calor, perguntamos o que nos querem dizer os filmes em que os termómetros não param de subir. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo: #levantemoraboevaoaocinemaSee omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Muitos dos melhores filmes do ano são feitos por mulheres. "L’ Aventura" confirma-o 03.07.2026 37мин
    Para Vasco Câmara, este filme - L'Aventura, da realizadora francesa Sophie Letourneur - é "um dos acontecimentos cinematográficos do ano em Portugal". Foi, por isso, para nós o ponto de partida para uma conversa sobre o cinema realizado por mulheres e a forma como, não só este ano mas este ano de uma maneira muito evidente, nos tem trazido algumas das melhores surpresas. No caso deste filme, o Verão, mas um Verão, em viagem por Itália, colado à pele das pequenas coisas que são as férias: crianças que fazem birras, quartos alugados que não são o que se esperava, uma filha mais velha que exige atenção, a decisão de onde se vai comer, o que se vai comer, a que praia se vai, tudo o que corre mal, e também o que corre bem, os momentos de tédio e, de repente, algo que os faz rir todos juntos. E, no meio disto, um casal (ela é a própria Sophie Letourneur, ele é o actor e músico Philippe Katherine) que se vai afastando. Nada de dramático. A vida, afinal. Mas não é fácil filmá-la assim, tão perto do que é a banalidade do quotidiano, e é isso que torna o trabalho de Sophie Letourneur tão extraordinário - antes deste filme houve outro, Voyages en Italie (2023) também as férias, também Itália, o mesmo casal, outro momento. Little Trouble Girls também está nas salas e também foi realizado por uma mulher, a eslovena Urska Djukic, sobre mulheres, neste caso sobre raparigas, meninas de coro (literalmente) às voltas com o corpo e o desejo. Aqui, temos a música como manifestação de um corpo (individual e, depois, colectivo), as perguntas, a fé (das outras), as traições, a culpa, o aprender a crescer, a descoberta de que se é uma pessoa de corpo inteiro. Mais um pretexto, a juntar ao filme de Sophie Letourneur, para nos interrogarmos sobre o que é isso de um cinema de mulheres, feminino - se é que faz sentido a pergunta. Não fugimos dela neste episódio 24 do No Escuro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Terror No Escuro: porque é que gostámos de "Obsessão" e não gostámos de "Backrooms"? 26.06.2026 34мин
    Quarenta anos depois, Terror na Auto-Estrada, de Robert Harron, em nova cópia 4 K regressa às salas. E o muito ambíguo encontro entre um virginal C. Thomas Howell e um apolíneo Rutger Hauer, na paisagem americana, que foi um êxito-surpresa no ano de 1986. Como quem não quer a coisa... custou alguns tostões, fez milhões. E fez medo. Tornou-se um filme de culto. Está imaculado, asseguramos. Vale a pena experimentar a solidão na auto-estrada, o céu ilimitado e a chuva em ecrã grande. E depois regressar a casa ao som de Riders on the Storm, dos Doors, e a pensar: que bem ainda se filmava nos anos 80! Um antepassado, mutatis mutandis, de Backrooms - O Labirinto, de Kane Parsons, e de Obsessão - A felicidade é relativa, de Curry Barker, que foram realizados por dois muito jovens cineastas que saltaram do Youtube para o ecrã de cinema, e que estão a constituir um êxito em todo o mundo, Portugal incluído, ultrapassando nas bilheteiras franchises como o último Star Wars. Pelos dados da proposta, facilmente se conclui que o mundo não é de facto o mesmo, o cinema muito menos, e que hoje se sobrepõe a tudo as leituras do "fenómeno". É um círculo com algo infernal em que a atenção cria a atenção, e o jornalismo e a crítica se transformam em câmara de eco. Há anos que se diz que o cinema de terror é o género que sobrevive ao abandono das salas pelos espectadores, os mais jovens sobretudo, e estes estão de facto a acorrer a Backrooms e a Obsessão. Assim sendo, o que interessa se os filmes são interessantes ou não? Ainda há espaço para falar disso? Interessa. A nós interessa. Propomos, então, neste episódios de No Escuro não ignorar o fenómeno sociológico mas tratar da coisa cinematográfica. Ligar, por exemplo, Terror na Auto-Estrada a Obsessão, que constituiu de facto uma surpresa pelo cinema de outros tempos que tem dentro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden DesertThe Hidden Desert , gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Como com Lennon e McCartney, entre Truffaut e Godard é preciso escolher? 19.06.2026 46мин
    Em 2005, a Cinemateca Portuguesa dedicou uma retrospectiva integral à obra de François Truffaut (1932-1984). Vinte anos depois, irradiando a partir do Cinema Trindade no Porto para o Nimas em Lisboa, uma “quase integral” – faltam dois filmes - volta a trazer às salas portuguesas um nome que fazia os espectadores deslocarem-se (a um já desaparecido cinema Londres, em Lisboa, por exemplo) para verem o “novo filme de…” Seria O Último Metro ou A Mulher do Lado, ou Finalmente Domingo! (e Truffaut morreu a um domingo…). Foram os títulos finais da sua obra, ele que cedo demais foi levado por um tumor no cérebro. Quando morreu, tinha contribuído para a indústria cinematográfica francesa com a “invenção” do filme de autor popular. É (também) por isso que François Truffaut é hoje um nome razoavelmente esquecido pela cinefilia, que entretanto santificou o seu compagnon de route tornado irmão desavindo chamado Jean-Luc Godard? Um é o conservador, o outro o radical? Numa primeira abordagem a – assim se chama o ciclo - Ao Sol da Nouvelle Vague (é todo o Truffaut, excepto A Noite Americana e Fahrenheit 451- Grau de Destruição, cujos direitos neste momento estão em transição), convidamos dois programadores: o “nosso” Luís Miguel Oliveira, da Cinemateca Portuguesa, e Francisco Valente, que também já foi nosso colaborador e colaborador da Cinemateca e que agora, em Nova Iorque, faz a curadoria da programação de cinema do Museum of Modern Art (MoMA). O Luís Miguel trabalha com vista para o cartaz de O Acossado (Godard). Francisco Valente tem na parede o poster do ciclo de Truffaut de 2005 na Cinemateca. Com eles debatemos o significado de Truffaut hoje e inevitavelmente a oposição – que sempre mostra o rosto – entre duas figuras tornadas ideias opostas de cinema, François e Jean-Luc. Começamos por aqui e vamos por aí… No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Spielberg diz que não estamos sozinhos. Sabíamos desde 1977. Para quê voltar a isso? 12.06.2026 29мин
    Há meio século que Steven Spielberg já nos tinha avisado: eles estão entre nós. Eles são os extraterrestres, que chegaram ao cinema pelas mãos do realizador norte-americano em 1977, o ano de Encontros Imediatos de Terceiro Grau, um dos grandes momentos da arte cinematográfica do século XX. E se agora Spielberg vem dizer que eles existem mesmo, que as Administrações norte-americanas nos têm escondido a verdade ao longo de décadas e que é chegado o momento da revelação — e se até Barack Obama disse recentemente acreditar que há vida noutros planetas (embora garanta que não há segredos escondidos) — a verdade é que nós já acreditávamos neles desde esse grande encontro de 77. Acreditávamos mais do que acreditamos hoje neste regresso ao passado que é O Dia da Revelação (Disclosure Day), o novo Spielberg que acaba de chegar às salas. É disso que falamos neste episódio, da magia desses não humanos que há 50 anos se faziam anunciar (entre outras coisas) através de uma montanha de puré de batata, e que se repetiu mais tarde, em 1982, com ET, mas que não volta agora. Spielberg parece ter-se adaptado rapidamente à nova forma (e velocidade) de contar histórias — a história é a mesma mas a fantasia já não nos toca como antes. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Jean Moulin, Thomas Mann, Estaline: viagem pelo mundo de ontem que pode ser o de hoje 05.06.2026 27мин
    Dois procuradores, do bielorusso Sergei Loznitsa: a partir de agora não vai ser possível continuar a sustentar que a obra de ficção do realizador é menos interessante ou grandiosa do que a obra documental. Sim, já havia My Joy, com que Loznitsa se estreou na longa de ficção. Era um filme de tonalidade lynchiana. Mas o barroquismo de exercícios seguintes, a cotejar com o excesso felliniano, começou a fazer pender o centro de gravidade do cinema de Loznitsa para os grandes trabalhos com as imagens de arquivo da História soviética, sobretudo da era de Estaline, a que Loznitsa dava nova vida com o som. Como o majestoso Funeral de Estado (2019) sobre as exéquias do ditador. Donbass, há oito anos, trabalhava a ficção absurdista. Era uma obra estranha, esquiva. Dois Procuradores, então, regresso à ficção, traz um rigor empedernido e é mesmo um dos grandes títulos do ano. Na aparência de "pequeno filme", natureza miniatural, Loznitsa faz nele cinema de época, os anos 30 de Estaline, desde logo através do "clássico" formato quadrado, da escala e arquitectura dos planos. Adapta uma novela de Georgy Demidov, homem da Ciência que passou 14 anos no gulag estalinista e que dessa experiência se serviu para uma ficção escrita em 1969 que só seria publicada em 2009. Conta a aventura kafkiana de um zeloso procurador ao serviço da verdade bolchevique que se dá conta tarde demais que a verdade é uma viagem, como aquela de My Joy, sem regresso. Estaline é a presença no cinema de Loznitsa. O seu rosto, de forma explícita e implícita. O "filme de época" é uma forma de iluminar o presente. O cinema tem estado aí, inquieto com o mundo à volta. É um dos balanços a fazer do Festival de Cannes, ou até mesmo do seu palmarés, e é essa viagem, europeia, assinale-se, que fazemos neste episódio: com o escritor Thomas Mann, num filme, Fatherland, de Pawel Pawlikowski, que reconstitui o regresso do escritor à sua Alemanha no pós-guerra, ou com o herói da resistência francesa Jean Moulin. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Já temos dois Salazares. Só falta mais um... 29.05.2026 41мин
    José Filipe Costa psicanalisa o pai nosso. Isto é: psicanalisa-nos. Pai Nosso, Os Últimos Dias de Salazar não é um filme sobre o passado. Como aliás está a acontecer hoje com muitos "filmes de época": são mensagens para o presente. Mostrar o tempo que passou, o que já esquecemos e o que permanece latente. Isto acontece nas salas esta semana. Em Setembro, João Botelho estreará O Velho Salazar. Tudo diferente e tudo igual. Aliás, um completa o outro. O primeiro é onírico, fantasmagórico. Disse-nos um dia José Filipe Costa: "O passado não é uma coisa fixa, o passado é memória. E o cinema efabula. Deve muito à História, mas ao mesmo tempo não lhe deve. As narrativas cinematográficas vão a lugares onde a História não chega". Tudo se passa em São Bento, huis clos e ambiente de folie, quando Salazar (Jorge Mota), depois do AVC, continua a pensar que é ele que ainda lidera o governo, e Maria de Jesus (Catarina Avelar) garante esse teatrinho do poder. O segundo é mais farsante mas a partir de dados e factos cronológicos. Como um falso documentário. Não há dois sem três? Diria o outro que sim... No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Cannes: nos bastidores de um dos maiores festivais de cinema do mundo 22.05.2026 39мин
    O que é que importa realmente num festival de cinema? Os filmes? A passadeira vermelha? A avaliar pelas fotografias que as agências enviam diariamente sobre a 79.ª edição do Festival de Cannes, é a segunda, onde desfilam os "talentos" vestidos por costureiros e disputando a atenção de um público que não perde este desfile de estrelas — mesmo que perca os filmes. Entretanto, nas salas de cinema, os críticos (os que ainda existem) vêm os filmes e tentam produzir discurso sobre eles. Vasco Câmara é o enviado do PÚBLICO a Cannes e conta-nos o que é esta vida dupla que a pequena cidade da Riviera francesa vive por estes dias, compara o ambiente de hoje com o do passado, explica como actores, realizadores, jornalistas e um número crescente de influencers se movem no universo do cinema, gerindo interesses e necessidades distintos para responder a públicos distintos. Neste episódio do No Escuro vamos, portanto, espreitar os bastidores de Cannes, mas vamos também falar de Não Desviar o Olhar, filme de Júlio Alves que passou recentemente no IndieLisboa e que nos traz o olhar de quatro críticos de cinema — Vasco Câmara, Luís Miguel Oliveira (também do PÚBLICO), Inês Lourenço e Ricardo Vieira Lisboa — sobre os filmes que os marcaram. É uma viagem pelas imagens que (lhes) povoam a vida e uma reflexão sobre o que é isso de ser crítico de cinema. Vamos andar, por isso, sempre No Escuro — mas sem esquecer a passadeira vermelha. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Da curta feita na escola de cinema à adaptação de Coetzee, estes são portugueses em Cannes 15.05.2026 49мин
    São duas curtas e uma longa, três filmes, três realizadores portugueses que vão estar no festival de cinema de Cannes (de 13 a 24 de Maio). Tiago Guedes, realizador da longa, Aquí, adaptação da Triologia de Jesus de J.M. Coetzee, Daniel Soares, realizador de Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio, e Clara Vieira, estudante de cinema, que viu com surpresa a sua primeira obra, um trabalho para a escola intitulado Onde Nascem os Pirilampos, seleccionada para o festival francês. É com eles que conversamos neste episódio do No Escuro. Quisemos saber o que esperam de Cannes, o que significa para um realizador a presença neste festival (mesmo quando, como acontece com Aquí, não seja a concurso), mas sobretudo quisemos ouvi-los falar dos seus filmes. Aquí passa-se num não-lugar, numa língua que, por vontade do escritor, se quis outra e portanto é o espanhol, traz um pai e um filho sem passado, uma família que se tenta construir enquanto tal, a dança como forma de entender o mundo e um universo que se abala e recompõe através de uma criança que esconde mistérios que é melhor não tentarmos compreender nem explicar. No filme de Daniel Soares, o título é literal e a narrativa fragmentária leva-nos ao longo das margens de um rio revelando o absurdo que existe nos insignificantes momentos do quotidiano, enquanto a obra de Clara Vieira é um trabalho pensado de forma colectiva, em torno de um grupo de amigos, um bosque, os seus mistérios e as suas descobertas, um espaço com algo de fantástico que traz ecos do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • A Inteligência Artificial vai exterminar-nos? Primeiro No Escuro ao vivo 08.05.2026 45мин
    Ghost in the Machine, de Valerie Veatch, foi um dos títulos em destaque no último Sundance Film Festival e foi um dos filmes programados no Indielisboa, festival que ainda decorre. Por causa desse documentário, No Escuro saiu pela primeira vez do estúdio de gravação e participou num debate — aconteceu no último fim-de-semana, na Culturgest, em Lisboa — que tentava enquadrar a torrencial muralha de informação, dúvidas e angústia que do filme se liberta. O que é a Inteligência Artificial e que forças, ideológicas, políticas, a dominam? Onde já vai a idade dourada, salvífica, da relação do homem com a tecnologia? É o tempo, hoje, do "tecno-fascismo"? Em suma, é desta que vamos ser exterminados? Ou esta angústia é apenas a enésima variação de um medo ancestral do homem perante a máquina? Participaram neste debate dois cépticos e um optimista. É o que podemos chamar, optimista, a José Bragança de Miranda, professor da Lusófona, especialista em Teoria da Cultura e dos Media, Cibercultura e Artes Contemporâneas. Talvez seja, no caso dele, a sedução do caos. Já Bruno Abib, que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2017 trabalha como montador em curtas e longas-metragens de ficção e documentário, e Catarina Rao, designer gráfica que tem desenvolvido o seu trabalho numa vertente mais pessoal e também para marcas comerciais, têm metido as mãos na massa, como se costuma dizer. Utilizam ferramentas da IA. E estão num momento de dúvida e de questionamento pessoal. Oiçam-nos. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.
  • Entre "O Diabo Veste Prada 2" e "Divina Comédia" fazemos a nossa escolha 01.05.2026 33мин
    No Escuro, connosco, é às claras: encorajamos vivamente Divina Comédia, de Ali Asgari, resistimos ao condicionamento que é a operação chamada O Diabo Veste Prada 2. Chamem-lhe resistência, chamem-lhe o que quiserem: para quê precipitarem-se por estes dias em direcção ao novo duelo entre Miranda Priestly e Andrea Sachs, já que as vossas expectativas serão derrotadas — repararão que todas as personagens estão agora à procura da sua humanidade perdida e que a boa e velha maldade foi apagada —, quando têm a possibilidade de se divertirem de forma inteligente com o absurdo do mundo? O primeiro filme já todos sabem o que é. O segundo, não: é uma comédia negra, passada em Teerão, em que um realizador, de motoreta como Nanni Moretti em Querido Diário, anda pelos círculos do Inferno a tentar que as autoridades iranianas autorizem a exibição do seu filme. Nanni é um fã, exibiu o filme na sua sala de cinema em Roma. Quem avisa, amigo é: Divina Comédia! No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).See omnystudio.com/listener for privacy information.

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